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Uma aula divertida e valiosa

Luis Fernando Pereira

da ponta_noticias_okJá se passaram oito anos desde o seu lançamento e o espetáculo musical Da Ponta da Língua à Ponta do Pé vem ainda cumprindo muito bem o seu papel social: apresentar o universo teatral, mais especificamente o da dança, para o público infanto-juvenil. Porém, deixando de lado esse elemento externo, o que se pode afirmar é que a peça – um musical propriamente dito – possui força plástica e narrativa merecedora de muitos aplausos.

Não basta somente ter boa vontade para construir um projeto que vise levar esse mundo das artes para um determinado público. Se a ideia em questão não tiver qualidades, então o resultado tende a sair até mesmo contrário aos seus objetivos, por mais nobres que sejam estas intenções. Neste sentido, Da Ponta da Língua à Ponta do Pé se apresenta como uma das mais interessantes propostas artístico-educativas do gênero.

A peça conta a história de Zé, um adolescente que adora andar de skate e que depois de se apaixonar pela bailarina Isadora, passeia pelo universo da dança para se aproximar da garota. Com a ajuda de uma professora, ele é apresentado à história da dança no mundo ocidental, desde épocas pré-históricas, passando pelas Roma e Grécia antigas, até chegar às transformações originadas por Isadora Duncan, ao estabelecimento da dança como profissão e às produções contemporâneas.

É muito interessante o modo como a construção narrativa e a criação como um todo, é pensada. Dá para perceber, desde o início do espetáculo, que todos os elementos ali são inseridos estrategicamente para alcançar um equilíbrio entre, digamos assim, o sagrado e o profano, ou seja, estabelecer na peça tudo que a dança tem para oferecer, com seus movimentos técnicos e ainda colocar muito do que as crianças e adolescentes absorvem de cultura popular. Como exemplos: as gírias utilizadas pelos personagens, que estreita os laços de linguagem com o público, além da inserção do boneco de Shrek, que serve para que a plateia, quase toda composta de guris e gurias, sinta-se ainda mais familiarizada com aquele universo.

Outra escolha acertada foi com o fio condutor da história. Usar a comédia romântica como base para entrar nas mentes infanto-juvenis mostrou-se como uma feliz decisão, pois leva a plateia a acompanhar todo o desenrolar da história e saber se ao final vai acontecer o tão esperado beijo entre os protagonistas. Essa não era a única opção, e nesta perspectiva, vale mencionar o livro O Mundo de Sofia, onde o autor (Jostein Gaarder) utiliza a relação de pai e filho como fundo para apresentar a história da filosofia para a personagem que dá título ao livro, bem como para todos os leitores. Não dá para afirmar que o texto construído por Cristina Castro (diretora de Da Ponta da Língua à Ponta do Pé), juntamente com João Sanches e a partir da pesquisa histórica de Lúcia Matos, utiliza o livro como uma das referências, mas certamente a relação entre os dois projetos merece, no mínimo, um olhar mais atento.

Vale ressaltar também que uma das primeiras sequências do espetáculo ambienta-se justamente na Grécia Antiga, com a apresentação de alguns personagens centrais para o entendimento da história ocidental, como os pensadores Aristóteles e Pitágoras. Durante toda a peça, vale dizer, são introduzidos personagens que de algum modo foram importantes para o mundo da dança. Luís XIV, por exemplo, fundou em 1661 a Academia Real de Dança, tendo papel de destaque na difusão dessa arte mundo afora. Mais elogiosa ainda é a maneira como se conta a história de Isadora Duncan, considerada a pioneira da dança moderna e que causou bastante polêmica ao ignorar todas as técnicas do balé clássico.

Falando dos elementos mais técnicos, é perceptível que a trilha sonora, assinada por Jarbas Bittencourt, possui a função de determinar o ritmo mais dinâmico da história, além de ajudar no desenvolvimento da narrativa. A trilha sonora consegue fazer a história andar, o que só traz ganhos para o resultado final obtido. Além disso, há um bom trabalho de figurino, responsabilidade de Márcio Meirelles, que opta pelo trabalho constante de troca de roupas, oscilando entre o multicolorido e as vestes com tons mais sóbrios. O resultado de tudo isso é de uma beleza plástica admirável.

Ademais, merece elogios todo o trabalho que é externo ao espetáculo propriamente dito. A estrutura por trás do projeto é muito boa, e a parceria entre a produção da peça com escolas e ONGs merece aplausos.

O Teatro Solar Boa Vista, local destas apresentações feitas no VIVADANÇA Festival Internacional 2012, é bastante acolhedor e casou bem com a plateia, formada, em sua grande maioria, por crianças. E essas crianças se comportaram muito bem. Exigir total silêncio de meninos e meninas nessa idade é algo utópico, acredito, mas dentro do possível a educação imperou, ao menos no espetáculo visto na quarta-feira, 26 de abril.

Relevante socialmente e bonito visualmente, Da Ponta da Língua à Ponta do Pé é uma experiência das mais válidas, seja para crianças, para adolescentes, para adultos, para velhinhos...

Luis Fernando Pereira é jornalista e crítico. 

Este texto foi publicado no site Cabine Cultural.

Fotos de João Milet Meirelles
 

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