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Splash e pum! Metáforas sonoras de uma sociedade agonizante

Carmen Paternostro

swan lakeNa programação do VIVADANÇA Festival Internacional - Ano 6, o espetáculo Swan Lake (O Lago dos Cisnes), dirigido por Idan Cohen, destacou-se como obra de ruptura trazendo novas e instigantes reflexões que vão além do esperado. Swan Lake nos chama para um lugar onde não nos sentimos à vontade, quando se trata de estar numa sala de espetáculos. O lugar do incômodo. Meu ouvido, solicitado pela música de Tchaikovski tocada muito alto, sofria. Talvez não pelo volume, mas por estar distante da música clássica. Ela raramente está presente num cotidiano em que predomina um universo rítmico intenso como o de Salvador. Meu corpo em crescente afundamento encolhia na cadeira, a cada vez que eu percebia a entrada de cisnes pesados e ruidosos na cena. Cisne não branco e diáfano, mas cisne algo patinho feio, que não eleva o espectador para o mundo dos sonhos e, sim, o aterra com imagens representativas de uma realidade às quais metaforicamente traduzem algumas facetas sociais do nosso tempo.

Logo na chegada, o espectador se depara com doze refletores no chão, em fileira, indicando a direção para cima. Foco no teto? Algum cisne vai voar? Qual nada! Primeiro vem Tchaikovski sozinho com sua música poderosa enchendo a sala durante a cena de abertura, quando o coreógrafo deixa um bom tempo a música dominando. Ouvindo a música, minha atenção volta-se mais ainda para os tomates espalhados perto dos refletores. Depois vem a dança, que entra sonoramente, executada por três dançarinas com figurino preto. Uma após da outra, com movimentos fortes e precisos de uma quarta posição no chão. Entram arrastando uma perna num ruond de jamb pás terre, ao invés de au Lair, fazendo um ruído Splash! Pum! Arrasta, sobe e cai! Um arrastar e um cair tão propositalmente pesado e anticisne clássico, apontando para nós logo de início que iríamos atravessar um outro lago, o lago imaginado por Idan Cohen.

Um jovem coreógrafo de Israel que, na sua segunda viagem ao Brasil, trouxe para Salvador um espetáculo muito bem elaborado com o propósito de desconstruir a versão romântica de Swan Lake que há séculos encanta o público da dança clássica. Em conversa com os alunos de Estudos Críticos e Analíticos do III semestre da Escola de Dança da Ufba, logo após o espetáculo, Idan explicou sua intenção de sair do conto de fadas e criar uma obra que falasse da sociedade contemporânea, cheia de problemas, em que não há muita coisa linda, nada é romântico. Para isso, o coreógrafo desenha principalmente no chão uma dança com seres desequilibrados, quase neuróticos e um tanto perversos. A segunda parte é permeada de cenas belas, compostas de arabesques entrecortados de quedas de troncos mexendo o diafragma como sanfona, com movimentos curtos de um soluço interminável. Assim, os cisnes vão morrendo, num lago de tomates amassados pelo corpo das dançarinas. Inédita a ideia do tomate como símbolo de uma aparente solidez e que num splash faz pum, e se derrete em água.

Decidido a mostrar que a beleza clássica do Swan Lake não faz mais sentido na sociedade contemporânea, o coreógrafo investe com fantasia numa desmontagem da beleza falsa, da harmonia de corpos sincronizados e do equilíbrio perfeito. Ele explora diferentes maneiras de perder o controle, e mostra o corpo descontrolado. Exaure magistralmente a dificuldade do corpo de permanecer em equilíbrio nos movimentos. Mostra com veemência, através de brincadeiras estúpidas - como na cena do aniversário do príncipe (na primeira parte), onde tudo é over -, como tudo entre as pessoas pode ser bruto. As dançarinas riem de uma forma estúpida, denunciando as relações do riso muitas vezes num sorriso alto e vazio. A história que atribui ao cisne negro a maldade e ao branco a bondade também é distorcida. As figuras são clownescas. Na primeira parte, essas figuras e esse jogo clownesco encontram eco em algumas pessoas não acostumadas com a proposta sofisticada de Idan Cohen. Aos poucos também os risonhos e ruidosos do público entram no jogo proposto pelo coreógrafo, que considera que não se tem mais espaço para ser cisne para sempre, expressão originária da coreografia Balé de Mulheres: "não podemos ser cisne para sempre" (de Suzanne Linke, com o Folkwang Studio em 1989).

Com um estilo de dança próprio, o coreógrafo israelense explora formas de soluços corporais. Sequências de movimento no chão predominam no espetáculo. Uma delas faz com que as pernas impulsionem respostas das outras partes do corpo como cabeça, ombros e braços com movimentos curtos. Quase como se o corpo tomasse um choque que fizesse estremecer as outras partes. Convulsões corporais são vistas com frequência. Talvez uma batida de asas dos cisnes de Idan? Os corpos bem treinados das dançarinas são solicitados com frequência para além do chão, porém não na posição vertical, mas inclinada, com vários battement de pernas sagitalmente realizados. Voos razantes? Swan Lake é um espetáculo que exige bastante do espectador. Foi sem dúvida um dos melhores trabalhos apresentados, no sentido de interpretação madura das dançarinas e da tradução dada a uma obra clássica com muita liberdade, humor, e foi, sobretudo, uma grande investida estética no pós-dramático em dança. Parabéns ao VIVADANÇA - Ano 6.

Carmen Paternostro é diretora de teatro, coreógrafa, professora da Escola de Dança da Universidade Federal da Bahia e pesqauisadora em crítica de dança.

Foto de João Milet Meirelles
 

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