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// Observatório
A tinta canta

Wolfgang Pannek*

Resposta ao artigo de Lucas Jerzy Portela (leia aqui)

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Com algum atraso, encontrei hoje e por acaso o texto Tinta não devia falar de Lucas Jerzy Portela, veiculado no Observatório do website do VIVADANÇA Festival Internacional. Portela critica o espetáculo Máquina Hamlet Fisted, apresentado pela Taanteatro Companhia por ocasião da 6a edição do festival, em Salvador.

Repleto de demonstrações de (des)gosto, mas carente de sustentação argumentativa, o texto de Portela merece atenção crítica, não somente em função de sua exposição superficial e de seu regionalismo conservador, mas principalmente por causa dos equívocos de seu discurso em relação às artes (cênicas) contemporâneas em geral.

Portela critica, sobretudo:

1. um "hibridismo metido a neutro" que não passa "de impotência";

2. a tematização cênica da corrupção por a) ser um aspecto da realidade brasileira que não surpreende e por b) ser expressa por meio de "um palavrório até correto" mas que "vira um contra-tudo-isso-que-está-aí";

3. um "discurso pós-lulista neurótico e cheio de impasses, "adubado no ressentimento antidilmista" que se pretende "mais a esquerda do que a esquerda hoje no poder";

e observa

4. que "tais impasses parecem se colocar para a população, políticos (e artistas) de São Paulo para baixo".

Sobre a primeira crítica

A primeira crítica se refere ao complexo 'pureza versus hibridismo de linguagens'. Para desqualificar o "hibridismo", invoca a autoridade do pintor Salvador Dalí e do coreógrafo baiano Gilmar. De acordo com Portela, Dalí, ao observar móbiles, disse: "O mínimo que se espera de uma escultura é que ela não se mova." Desconheço o contexto dessa afirmação mas por definição móbiles são móveis. Ou 'móbile' não se encaixava na definição de 'escultura' de Dalí, ou Dalí se referia a uma determinada expectativa diante do conceito "escultura". De fato, Dalí criou esculturas móveis, corpos dotados de gavetas e manequins-aquários.

A segunda autoridade citada, o coreógrafo Gilmar, interrompia os ensaios de "meninas bem nascidas", "quando fazia montagem para as escolas de balé da cidade do Salvador", dizendo: "não consigo pensar com tanta tinta falando, e vocês são mera tinta". O que Gilmar queria dizer com "mera tinta"? Será que via o bailarino – assim como Portela - como instrumento ou material (tinta) "submetido aos desígnios de um coreógrafo"?

Portela utiliza o termo "tinta" de duas maneiras distintas:

a) Em "tinta não devia falar", tinta é uma linguagem que não deve assumir a função da fala.

b) Em "meninas bem nascidas" como "mera tinta", o termo remete à função do bailarino como instrumento dentro de uma visão hierárquica do trabalho coreográfico.

Será que uma definição de escultura que não acompanhou a transformação dessa modalidade artística desde o princípio do século 20 e que não contempla obras como os Penetráveis, de Oiticica, ou as máquinas de Tingely, fornece um argumento consistente contra o hibridismo?

Será que problemas cognitivos como a "dificuldade de pensar" atribuídos a Gilmar justificam uma divisão rígida entre criadores e executores no campo das artes cênicas? Portela não cria argumentos, apenas cita opiniões cuja verdade estaria fundada na suposta autoridade de dois artistas. A exigência de separação e pureza – de linguagens e funções – nas artes (mas também nas ciências, na religião, na filosofia e nas condutas sociais em geral) é frequentemente vinculada a moralismos autoritários. O discurso imperativo de Portela demonstra isso com clareza: "a tinta não devia falar", "ou bem se é bailarino (...) ou bem se é ator". Portela pressupõe um ser e dever artístico, sem explicar em que esse ser consiste e porque ele determina um dever, isto é, o da separação de linguagens. Confia na autoevidência de suas crenças. Sua insistência na distinção nítida entre teatro e dança ignora a polifonia de códigos intrínseca às artes cênicas e revela um tradicionalismo conservador preso a ideais modernistas ultrapassados. Recordo Artur Rimbaud, sua poética associava tons musicais à cores e vogais, fenômeno hoje estudado como sinestesia pela neuro-psicologia: A tinta não somente fala, a tinta canta.

Sobre a segunda crítica

É preciso esclarecer um equivoco: Portela apresenta Máquina Hamlet Fisted (ele escreve erroneamente "Hamlet Máquina Fisted") como se fosse a encenação de Hamletmaschine de Heiner Müller. Acontece que o espetáculo apresentado no VIVADANÇA não é da autoria de Müller, mas de Wolfgang Pannek. A peça de Pannek, escrita em 2011, dialoga a partir de ângulos atuais com a peça de Müller, escrita em 1977. Ao fazer isso, não traz um "palavrório", mas textos cuidadosamente elaborados. O tema maior de Máquina Hamlet Fisted - como de Hamletmaschine, como de Hamlet - é o tema do poder e do relacionamento humano com o poder. Em Máquina Hamlet Fisted, essa questão se desdobra sob os pontos de vista político-histórico, sexual e artístico. Somente na cena de abertura, a peça discute explicitamente a corrupção.

Concordo com Portela nesse ponto: corrupção não é novidade no cenário sociopolítico brasileiro. A corrupção já não surpreende a ninguém. E é justamente esse escândalo da normalidade da corrupção que mobiliza Hamlet e que a peça faz questão de mostrar: a corrupção está no cerne da colonização das Américas. A falta de surpresa, de indignação, de disposição de confronto da corrupção e de seus agentes constitui o caso normal do cenário macropolítico e das microrrelações sociais, em todas as esferas, não somente entre os "bem nascidos", mas também entre "os pobres que agora descobriram que desejam".

À pergunta retórica de Portela "quem aliás é favor da corrupção?", Hamlet poderia responder: a esmagadora maioria! Ao mostrar conivência com as manobras e mentiras de seus governantes, colegas, familiares e de si mesma, ao aceitar governos corruptos por talvez sentir que atuaria de forma igualmente corrupta e oportunista se estivesse no lugar dos governantes.

Tudo isso deve provar que Máquina Hamlet Fisted, de maneira alguma, é um espetáculo "neutro", como alega Portela. Insisto ainda sobre o seguinte: a suposta obviedade e recorrência de importantes fatos sociais - corrupção, assimetria social, discriminações, caos urbano, entre outros – não torna menos urgente sua abordagem artística.

Sobre a terceira e quarta crítica

Os motivos elencados demonstram por que a Taanteatro Companhia não pode aceitar uma abordagem simplória da hibridez de linguagem e do atravessamento mútuo de códigos nas artes cênicas contemporâneas. Da mesma maneira não pode aceitar que as indagações expostas em Máquina Hamlet Fisted sejam reduzidas à expressão de neuroses e ressentimento de seu autor ou da população que vive "de São Paulo para baixo".

Desqualificar um argumento ou uma obra, atribuindo características patológicas ou moralmente questionáveis ao seu autor, é uma estratégia pobre e conhecida que figura na lógica como argumento ad hominem. Na ausência de bons argumentos, o crítico põe em dúvida a integridade mental ou moral do autor da obra criticada.

Os questionamentos explicitados na peça não se resumem nem excluem o governo atual. A peça debate uma tradição de poder sem reduzir o problema a simplificações dicotômicas entre partidos, entre pessoas "bem nascidas" e "pobres que agora descobriram que desejam" ou por meio de divisões demográficas ou de valor cultural entre 'pessoas acima e abaixo de São Paulo'.

O texto apressado e inconsistente de Lucas Jerzy Portela, demonstra, por meu ponto de vista, não um problema do hibridismo nas artes atuais, nem na criação teatro-coreográfica da Taanteatro Companhia e do espetáculo Máquina Hamlet Fisted, mas reflete acima de tudo os preconceitos, ressentimentos e as concepções estéticas datadas de seu autor, além de sublinhar a crise moral e pragmática da atual esquerda brasileira:

"(...) sou de esquerda, mas sou antes não-idiota, não tenho nada do que me decepcionar (embora tenha muito a combater em Dilma Roussef, e tenho feito desde antes de ela se eleger): não é nada diferente do que eu esperasse, nada que chegue a surpreender ou pasmar." diz Portela

Se o espetáculo Máquina Hamlet Fisted foi capaz de evidenciar esse impasse, já contribuiu para um pequeno e substancial avanço.

(*) Wolfgang Pannek é codiretor da Taanteatro Companhia. Autor e diretor do espetáculo Máquina Hamlet Fisted.

Foto de Silvia Machado

 

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